quarta-feira, 6 de abril de 2016

filme 9: ...E Justiça Para Todos (...And Justice For All), de Norman Jewison, 1979



Kerouac aos comandos.

Às vezes é difícil explicar por que é que certas coisas acontecem, por que é gostamos mais do Stallone que do Schwarzenegger ou por alma de quem temos uma queda para rever a interminável saga Sexta-Feira 13. A explicação é simples: há coisas que não são devidamente explicáveis, simplesmente entram na nossa vida de uma ou outra forma e acabam por nunca sair.

As razões que me levam a sentir um certo apego à figura de Norman Jewison são uma incógnita tão grande como o facto de ainda haver mães e melhores amigos para vingar nos filmes do Steven Seagal. E até aposto que grande parte dos meus caros leitores estarão já a abrir a página de IMDB do senhor Jewison, para saber quem será esta figura de nome estranho.

Ora a verdade é que Norman Jewison já foi nomeado não uma, nem duas, mas sete vezes para os Óscares da Academia, quer como realizador, quer como produtor, e esteve por detrás de filmes que, apesar de bastante populares à data da sua estreia, foram perdendo relevância à medida que os anos foram passando. E é esse o caso do filme que trago hoje aqui ao blog.

…E Justiça Para Todos (…And Justice For All, 1979) traz-nos um Al Pacino na pele de um advogado demasiado honesto para um meio corrupto e injusto como aquele em que se insere. Por outro lado, vê-se obrigado a defender um juiz por quem sente um ódio de estimação num caso de violação no qual sabe, à priori, da culpa do magistrado.

O tema é polémico e é tratado com a sobriedade necessária, num argumento escrito a meias por Valerie Curtin e pelo posteriormente oscarizado Barry Levinson. Por vezes, consegue até atingir a genialidade, como na criação dos papéis dos advogados amigos de Pacino que vão cedendo ao sistema (Jeffrey Tambor e Larry Bryggman mereciam todos os prémios do mundo). No entanto, a realização nem sempre consegue ser equilibrada e principalmente a relação de Pacino com o juiz corrupto bem como as cenas no tribunal mereciam outro impacto dramático.

Fica a sensação de termos passado ao lado de um grande filme, sensação repetida noutras obras de Jewison, que até triunfou a grande altura antes e depois de …E Justiça Para Todos, com títulos como No Calor da Noite (In the Heat of the Night, 1967), Um Violino no Telhado (Fiddler on the Roof, 1971) ou O Feitiço da Lua (Moonstruck, 1987), só para dar alguns exemplos.

Visto no Drive-in: 7

Visto no IMDB: 7,4

Por que é que eu nunca vi isto antes? Têm a noção de quantos filmes do Pacino são de visionamento obrigatório?

Recomendado para: Aqueles que acreditam que a justiça é cega.


Comentário chunga: Cega. Pois, isso…

segunda-feira, 28 de março de 2016

filme 8: Polícia Sem Lei (Bad Lieutenant), de Abel Ferrara, 1992



Kerouac com mais um.

Facto nº 1: admito que sempre tive um pé atrás em relação a Abel Ferrara. Facto nº 2: isso deveu-se a só ter visto, da sua vasta filmografia, o inconsequente Maria Madalena (Mary, 2005) que a minha memória se encarregou de esquecer com o tempo. O tempo, porém, não esqueceu que foi Ferrara a realizá-lo e, talvez por isso, tenha adiado tanto tempo o visionamento de um dos seus filmes mais imediatamente reconhecidos.

Facto 3: já tinha visto a versão que Werner Herzog realizara em 2009 e a impressão com que tinha ficado era tão boa que tinha um certo receio de ver a original.
Nova-iorquino de gema – nasceu no Bronx, em 1951 – Ferrara conhece a cidade como ninguém e, por isso, não espanta que os seus melhores trabalhos versem, de uma forma ou de outra, sobre a cidade que nunca dorme.

Em Polícia Sem Lei, escolhe um detective corrupto para personificar todo um lado decadente da cidade, infestado por vícios vários, e ao qual Harvey Keitel se entrega de corpo e alma numa interpretação que parece, a certa altura, ser boa demais para ser apenas ficção. Curiosamente, num papel que esteve para recusar e que Christopher Walken ponderou aceitar.

O filme cresce à medida que avança a dependência do detective em relação às drogas e que a investigação a que dá corpo – a violação de uma freira – se desenvolve em direcção a terrenos inesperados. A decadência do detective caminha na direcção paradoxalmente oposta da redenção que por vezes parece procurar.

Polícia Sem Lei tem uma moral dúbia e nem sempre clara, o que o torna por vezes difícil, nem sempre compensador, mas por outro lado, complexo e cheio de vida.

Uma obra para ver e meditar. Vai permanecer com o espectador durante bastante tempo após o visionamento.

Visto no drive-in: 8

Visto no imdb: 7,1

Por que é que nunca vi isto antes? Ainda é preciso dizer mais?

Recomendado para: Fãs de Scorsese. E ele até adorou o filme.

Comentário chunga: era suposto o detective converter-se?



segunda-feira, 21 de março de 2016

Filme 7: A Golpada (The Sting), de George Roy Hill, 1973



Kerouac de regresso, após pausa prolongada, mas com a missão a ser cumprida.

E retomo a nossa caminhada com um clássico que fez furor à sua passagem, A Golpada, filme no qual o saudoso George Roy Hill voltou a dirigir um par que fizera furor apenas quatro anos volvidos com o inesquecível Dois Homens e Um Destino (Butch Cassidy and the Sundance Kid): Robert Redford e Paul Newman.

Desta vez, o argumento de David S. Ward conta-nos a história de Hooker (Redford), um pequeno vigarista que procura fazer fortuna e se vai cruzar com uma lenda esquecida dos “golpes de asa”, Henry Gondorff (Newman), com quem tenta dar o golpe perfeito.

Para quem viu já imensos caper movies, não haverá assim tanto de surpreendente neste A Golpada, cujas voltas e reviravoltas, apesar de muito bem estruturadas, não surpreendem o cinéfilo experiente, sendo que, por outro lado, chegam mesmo a roçar uma certa inverosimilhança. No entanto, a direcção de Roy Hill nunca deixa o filme resvalar, adoptando um tom equilibrado entre a trama e a comédia que não deixa o filme cair no ridículo.

A Golpada é ainda um brilharete ao nível das representações, para Redford e principalmente Newman, aqui num papel talvez mais exigente a nível dramático do que o do seu comparsa, e por isso mais complexo. O mérito de Newman passa, contudo, por se apagar para que Redford possa assumir um certo protagonismo, acabando os dois actores por se complementar de forma aparentemente instintiva.

Não estando ao nível da parceria anterior entre Hill, Redford e Newman – e admitindo que o número de Oscares ganho possa pecar um pouco pelo exagero – esta não deixa de ser uma obra ímpar e um belíssimo filme para um serão em família. Ou talvez não…

Visto no Drive-in: 8

Visto no imdb: 8,3

Por que é que nunca vi isto antes? Porque só agora arranjei uma edição em DVD como deve ser.

Recomendado para: Quem não se importe de ser enganado… com bom gosto.


Comentário chunga: Por que é que o negro é sempre o primeiro a morrer?


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

(filme 6): O Urso (L'Ours), de Jean-Jacques Annaud, 1988



Kerouac, always him.

Quando penso em Jean-Jacques Annaud, quase sempre me vêm à cabeça sentimentos da infância, de quando a mente e o espírito me deixavam maravilhar com o que via, como se fosse a primeira vez. Nunca conseguirei descrever devidamente o que senti quando assisti à última cena – emblemática – de O Nome da Rosa (In the Name of the Rose, 1986) e de como esse momento perdura, ainda hoje, no meu imaginário cinéfilo.

Annaud representa, para mim, como que um guardião sagrado de um certo tipo de cinema que já raramente se faz, muito ligado a um conceito de grande orçamento, mas seguindo um caminho mais tradicional na forma de contar a história, raramente fazendo uso de efeitos especiais de “dar no olho”. Com Annaud sabemos que vamos ter planos muito bonitos e quase sempre criteriosamente conectados com a banda sonora. Sabemos também, com quase toda a certeza, que sairemos da sala com a alma cheia de sentimentos puros e mergulhados em universos e realidades que fomos só habituados a sonhar. A pureza de sentimentos com que o francês ilustra os seus filmes dá-lhe uma autenticidade difícil de igualar num cinema comercial actual que parece dominado por muito parra e pouca uva.

Em 1988, dois anos depois da explosão medieval que consagrou (mais uma vez) Sean Connery e lançou Christian Slater, o cineasta propôs-se a fazer algo impensável: contar a história de um pequeno urso praticamente sem fazer uso da palavra. Tudo o que vemos no filme – exceptuando as poucas cenas que incluem os caçadores – são cenas da vida de um urso selvagem como qualquer outro. A magia da realização, da fotografia e da montagem transformam esta obra num tratado sobre tolerância, amizade, carinho, dor e, em última instância (ou até não), amor.

O Urso é um filme em que Annaud facilmente poderia ter-se perdido e transformado numa qualquer Lassie da vida, cheio de mensagem e lições de moral enfiadas a martelo. Ao optar pela música e pelos gestos ao invés das palavras, o francês deu lirismo e poesia ao quotidiano human… ups, do urso, tornando, assim, o seu filme numa obra universal, capaz de emocionar o mais duro dos corações.


A ver e rever, e rever.

Visto no Drive-in: 9

Visto no imdb: 7,7

Por que é que nunca vi isto antes? Só agora encontrei o DVD nacional. :)

Recomendado para: Todos os machos. Este é daqueles para verem às escondidas.

Comentário chuga: Qual o humano e qual o urso?

Trailer


sábado, 6 de fevereiro de 2016

(filme 5): Mississippi em Chamas (Mississippi Burning), de Alan Parker, 1988



Kerouac aos comandos!

Alan Parker é um nome fundamental na cinematografia britânica (e não só) de finais do século XX. Por vezes controverso, o inglês ganhou notoriedade com O Expresso da Meia-Noite (Midnight Express, 1978) e sucesso comercial com Fama (Fame, 1980), acabando, a partir daí, por construir uma carreira eclética e de mérito reconhecido.

O ponto mais alto do seu percurso terá sido este Mississippi em Chamas, retrato de uma América profunda, cujo sul é dominado pela segregação racial e pela lei dos “brancos”, reflexo também de tradições antigas nunca devidamente atualizadas.

Mississippi em Chamas é a história de dois detectives do FBi destacados para encontrar três activistas que lutam pela igualdade racial. É a história das suas diferentes personalidades e métodos num ambiente semi-desconhecido para ambos, mas que nenhum dos dois parece entender à partida. Aqui não faltam as retrógradas bandeiras da Confederação, a sublinhar uma mentalidade que muitos recusam mudar, não tanto por maldade, mas por resistência à mudança do seu pacato estado de coisas. O choque que traz a chegada dos agentes vem precisamente do seu abanar das convenções instituídas e da resistência que o povo lhes oferece.

Um dos grandes trunfos destes 112 minutos de filme reside no argumento de Chris Gerolmo, paciente na construção de personagens muito ricos e de situações complexas mas, mais do que isso, de uma moral que nem sempre corresponde às expectativas do espectador.

Parker acaba por saber ilustrar com crueza esse mesmo argumento, contando com um excelente naipe de atores, onde se destacam Gene Hackman e Frances McDormand, arrasadores tanto nas cenas que partilham como nas restantes.

Visto no Drive-in: 8,5
Visto no imdb: 7,8
Porque é que não vi isto antes? Curiosamente, já tinha visto, mas foi há tantos anos…
Recomendado para: Quem queira pensar em quão intolerante consegue ser.

Comentário chunga: Polícias gordos num filme americano?
Curiosidade: Don Johnson (sim, o Sonny Crocket) tentou por tudo ficar com o papel de Willem Dafoe.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Kerouac ici. (filme 4): O Ofício de Matar (Le Samourai), de Jean-Pierre Melville, 1969



Kerouac ici.

Um dos objetivos desta demanda a que decidi dedicar-me em 2016 passa, não apenas pela descoberta de clássicos do cinema, mas pela descoberta de filmografias de diferentes nacionalidades e dos nomes que inevitavelmente lhes estão associados. Dois desses nomes vêm associados a O Ofício de Matar (Le Samourai, 1969), o filme sobre o qual vos escrevo hoje.

Alain Delon é, porventura, o nome mais sonante dos dois. Galã sem causa e intemporal, construiu uma carreira com muitos altos e baixos suportada por um rosto e um olhar magnéticos e pelas muitas páginas que se habituou a ocupar na imprensa mais cor-de-rosa.

Jean-Pierre Melville, o realizador, deixou-nos com apenas 55 anos e uma riquíssima obra onde facilmente sobressai o gosto e o talento pelo cinema noir.

Este O Ofício de Matar é um dos grandes expoentes dessa fase noir de Melville. História em crescendo sobre um assassino a soldo contratado para matar o dono de um casino e a perseguição cada vez mais cerrada de que é vítima por parte da polícia. Melville tem olho clínico para gerir as expectativas do público e fá-lo através de uma realização minimalista, à qual a precisão da fotografia em cada plano não é alheia. Por outro lado, cria personagens cujo interesse maior vem das atitudes inesperadas que deles provêm: a pianista e a namorada.

Le Samourai chega quase a ser um guilty pleasure porque nada parece ser absolutamente fantástico nele. No entanto, e alguns dias após o seu visionamento, é garantido que ainda vos estará a matutar na cabeça.

Visto no Drive-in: 8

Visto no imdb: 8,1

Porque é que não vi isto antes? Honestamente, nunca dele tinha ouvido falar.

Recomendado para: Quem queira descobrir dois ícones do cinema francês.

Comentário chunga: Na França dos anos 60, havia gente mesmo muito bonita.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Kerouac viu o Padrinho. Aleluia! (filme 3): The Godfather (O Padrinho), de Francis Ford Coppola, 1973



O Kerouac viu o Padrinho. Aleluia!

Ora vamos hoje falar de um clássico intemporal que nunca tinha entrado pelo leitor adentro deste vosso amigo sorvedor de filmes. Ou por outra, até já tinha entrado, mas quando tal momento de felicidade aconteceu, o ilustre escriba já estava em tal estado avançado de sono que preferiu não ver mais do que meia hora da obra, sob pena de estragar uma experiência que todos diziam ser imperdível.

A primeira vez que se vê O Padrinho é daquelas coisas que não se esquece e, em boa verdade – posso dizê-lo agora – é dos poucos filmes que ainda conseguem extrair uma sensação de maravilhamento genuíno a um movie buff na casa dos 30 e com milhares de fitas visionadas. Eu vi-o já de madrugada, no silêncio do quarto onde nem carros na rua se ouviam passar.

Desde cedo percebi que ver O Padrinho pela primeira vez deveria ser um momento solene e que deveria estar à altura dele, portanto foi com todo o cuidado e dedicação que retirei o dvd da minha belíssima box preta decorada por imagens da famiglia, e com mais cuidado ainda o coloquei no leitor. Um momento de devoção sentido como um gesto de cortesia para todos os que estiveram envolvidos na criação desta obra que tantos marcou.

Foi nesse preciso momento que me ocorreu algo que até aí me parecera completamente impensável: e se eu não gostasse do filme, fosse por que razão fosse? Se por um qualquer desvario do destino embirrasse com os trejeitos do Marlon Brando, com o facto do James Caan me fazer excessivamente lembrar o filho Scott, com o ritmo calmo e pausado que o Coppola escolheu para contar a sua história? Seria, não apenas a queda de um grande mito como uma desilusão enorme já que sou grande fã de filmes de gangsters. Ia torcer a cabeça a alguém.

Felizmente não foram precisos muitos minutos de filme para saber que estava perante uma obra de excepção. Todo o primeiro ato, passado essencialmente na cena do casamento, é um deleite para qualquer apreciador de cinema, com a apresentação sucessiva de todos os personagens e da mecânica da família Corleone que é, ao fim e ao cabo, o fio condutor por detrás das situações que ocorrem durante todo o filme.

Depois disso, Coppola filma a sua teia de tramas de uma forma tão complexa como visceral, sem concessões e polvilhando-a com momentos de tensão suprema, caminhando na linha ténue que separa o som da metralhadora com um lirismo poético.
Ver O Padrinho dá logo vontade de ver o 2 e o 3 em seguida e é certo que, mais semana menos semana, cá estarei para debitar umas quantas frases sobre eles. Mesmo que Don Corleone já não esteja lá para me fazer uma proposta que eu não possa recusar…

Visto no Drive-in: 9

Visto no imdb: 9,2

Porque é que não vi isto antes? Este sofreu da minha falta de paciência para ver filmes grandes, utimamente.

Recomendado para: Todos. Mesmo todos. Devia ser obrigatório por lei.

Comentário chunga: A Guerra dos Tronos devia pôr os olhos nisto.

Trailer